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Os interesses dos conservadores com o golpe no Paraguai

É clarividente o conluio de empresas transnacionais do agronegócio com as oligarquias latifundiárias e a mídia na promoção do golpe
Editorial da edição 488 do Brasil de Fato

Começam a se evidenciar os interesses que motivaram a grotesca ação dos golpistas paraguaios, que destituiu do cargo o presidente constitucional – eleito democraticamente pelo voto popular – Fernando Lugo.
Há casos em que os golpistas ainda conseguem mantê-los longe das discussões públicas, contando com o silêncio da mídia conivente com o golpe. As circunstâncias e os responsáveis pelo conflito armado em que morreram seis soldados e onze camponeses é um desses acontecimentos que os promotores do golpe se esforçam para acobertar. Há indícios de que os soldados foram executados por franco-atiradores. O presidente Lugo havia criado uma comissão para esclarecer o acontecimento. O golpista Frederico Franco, agora no cargo de presidente, destituiu a comissão e reza para que o acontecimento seja esquecido.
No entanto, se há fatos ainda nebulosos, é clarividente o conluio de empresas transnacionais do agronegócio com as oligarquias latifundiárias e a mídia na promoção do golpe. O Paraguai é o país de maior concentração fundiária do planeta: 85% das terras agrícolas estão nas mãos de 2% da população. Essa concentração fundiária torna ridículo o argumento da direita brasileira de que uma população de 400 mil brasiguaios estavam sendo prejudicados pelas ocupações de terras do movimento camponês e pela tímida iniciativa de reforma agrária do Presidente Lugo. As ações de ambos, camponeses e governo, visavam única e exclusivamente as terras obtidas ilegalmente pelos grandes latifundiários, inclusive brasileiros, beneficiados pelos 35 anos da sanguinária ditadura de Alfredo Strossner (1954-1989).
Exemplar é o silencio da mídia, tanto do Paraguai quanto do Brasil, sobre os milhares de brasiguaios – camponeses pobres – que são expulsos pelas oligarquias rurais e pelo agronegócio e hoje engrossam os acampamentos de sem-terras, retornando às terras brasileiras. Lá, como aqui, o latifúndio sobrevive apenas promovendo a violência, deixando um rastro de sangue e atentando contra democracia. Inclusive promovendo um golpe de Estado.
O presidente Lugo, mesmo com uma ação tímida, tomou iniciativas que confrontaram os interesses dos latifundiários e das transnacionais do agronegócio. Viabilizar a instituição de políticas públicas, principalmente nas áreas da saúde e educação, exigiu do presidente Lugo enfrentar a proteção que o Congresso paraguaio dá ao agronegócio, isentando-o, praticamente, do pagamento de impostos. A elite paraguaia se vangloria de ter transformado o país no quarto exportador mundial de soja, condição que possibilita ao agronegócio extrair uma renda anual de 6 bilhões de dólares. Escondem que o imposto imobiliário representa apenas 0,04% da carga tributária. E que a maioria dos latifundiários, ligados ao agronegócio e ao sistema financeiro, possui mansões em Punta Del Este (Uruguai) e em Miami (EUA). Não transformaram o país em exportador de soja. Transformaram o Paraguai na maior fazenda mundial exportadora de soja.
As restrições impostas à liberação das sementes transgênicas para o cultivo comercial também colocaram o governo em confronto com as empresas transnacionais, como Monsanto e Cargil. Nada mais expressivo desse conluio do que a síntese promovida pelo Grupo Zuccolillo: comanda a entidade latifundiária Unión de Gremios de Produção (UGP), é dono do jornal ABC Color e sócio principal da Cargil. Terá sido por interesses democráticos que o ABC Color se transformou num dos principais porta-vozes de oposição ao governo Lugo e defensor do golpe?
Durante meses a direita paraguaia promoveu campanhas midiáticas contra as autoridades governamentais que se opunham aos seus interesses econômicos. Haverá diferenças com as práticas criminosas do contraventor Carlinhos Cachoeira e a revista Veja, do Grupo Abril, sobre autoridades brasileiras? A mídia paraguaia recebeu cópia do discurso da presidenta da Associação Nacional dos Jornais, Judith Brito, que convocou os jornais para serem o verdadeiro partido de oposição ao governo Lula? A direita paraguaia levou a sério a bravata do estrepitoso ex-presidente do STF, Gilmar Mendes, quando disse: eu iria chamar o Lula, presidente da República, “às falas”?
O Brasil tem uma dupla dívida histórica com o povo paraguaio. Nos prestamos aos interesses imperialistas ao promovermos, com Uruguai e Argentina, o genocídio da Guerra do Paraguai (1864-69). Depois, em 1989, ao darmos asilo político ao ditador Alfredo Strossner, assegurando impunidade aos seus crimes.
Esperamos que agora o governo brasileiro não retroceda e compactue com o golpe que a direita paraguaia promoveu. A vitória das forças golpistas significa um alento aos partidos políticos, mídia, oligarquias rurais e aos interesses imperialistas que se sentem derrotados com as eleições de governos democráticos e progressistas na América Latina. A nota do PSDB apoiando o golpe (o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso está de acordo com a nota do seu partido?), as reações da mídia brasileira e as articulações dos latifundiários paraguaios com os daqui evidenciam os interesses comuns das forças retrógradas.

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