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Nosso alimento está acabando

Por Genaldo de Melo
Resultado de imagem para imagens símbolo da agricultura familiar
Com os aumentos dos gêneros alimentícios no Brasil, não é exagero nenhum nos dias de hoje afirmar peremptoriamente que precisamos empregar as forças políticas do Estado brasileiro para salvar o que ainda resta de esperança de sermos um país definitivamente soberano no processo de produção de alimentos que compõem a dieta básica dos brasileiros. Ou se pensa definitivamente desse modo ou seremos daqui a alguns anos consumidores de produtos alimentares enlatados de exportação. Estamos literalmente trabalhando com um modelo de desenvolvimento agrícola que definitivamente não interessa aos brasileiros, mas sim para exportação de produtos de monoculturas e de produtos que servem apenas como matéria-prima para a indústria.

Os recentes aumentos, por exemplo do feijão e do leite, e alguns outros produtos alimentícios, começaram a pautar as discussões de quem olha o Brasil não como subalterno de um modelo fundado no mercado externo e no fornecimento de matérias-primas para produtos como etanol e a celulose, que não contribuem para o aumento da oferta interna de alimentos, mas que olha o Brasil como um celeiro de desenvolvimento social e econômico atendendo exatamente às demandas internas.

É preciso que o Governo reveja a possibilidade de voltar atrás com a esdrúxula decisão de acabar com o Ministério de Desenvolvimento Agrário, pois na realidade aquele ministério, deveria do contrário, era ser fortalecido, pois precisamos mais do que urgente, pensando exatamente na formulação de Políticas Públicas de fortalecimento da produção de alimentos, criar as condições necessárias para aumentar a Agricultura familiar diversificada, bem como voltar a pautar à sociedade e o Estado para a necessidade da Reforma Agrária no Brasil.

Quem foi mesmo que disse que a Reforma Agrária está fora de moda? Ela é uma necessidade premente, que a própria estrutura da economia brasileira vai exigir com o tempo. Não se pode jamais deixar de produzir alimentos, como o feijão e o arroz, para produzir somente cana-de-açúcar e soja, porque isso vai se tornar com o tempo inviável do ponto de vista sócio-econômico.

Para se ter um exemplo da gravidade, em números absolutos, tínhamos em 1990 uma área plantada de 4.158.547 hectares de arroz, e hoje temos somente 2.347.460 hectares; tínhamos 5.304.267 hectares plantados de feijão, e hoje temos apenas plantados 3.401.466 hectares. Do mesmo modo, tínhamos 4.322.299 hectares plantados de cana-de-açúcar, e hoje temos 10.472.169 hectares; tínhamos 11.584.734 hectares plantados de soja, e hoje temos nada mais nada menos do que 30.308.231 hectares plantados. Ou seja, peremptoriamente estamos assumindo um modelo de desenvolvimento agrícola que não leva em consideração nada que interesse à produção exata de alimentos para os brasileiros, mas para simplesmente atender às necessidades do mercado externo.

Não é nenhum exagero dizer isso, estamos deixando aos poucos de produzir alimentos da nossa dieta alimentar para produzir monoculturas para exportação, fato que somente interessa aos poucos mentores do agronegócio, preconizados por Vitor Leal Nunes já em 1949 em seu “Coronelismo: enxada e voto”, que dispõem de dinheiro para comprar um quilo de feijão por qualquer preço que o escasso mercado de alimentos assim definir.

Um modelo de Estado que pensa apenas na agricultura para a exportação é um modelo literalmente condenado ao fracasso, porque nenhum Estado pode ser livre e soberano tendo sempre que depender de produtos alimentares exportados. Ninguém sobreviverá com a existência apenas de soja, cana-de-açúcar e celulose, porque as pessoas que fazem o Estado precisam, literalmente precisam, é de alimentos, e não de propaganda de que “Agro é tec..., agro é pop...”. E para tanto precisa-se de uma Agricultura Familiar forte, e de uma Reforma Agrária somente para tanto, e não para matéria de palavras de ordem nas ruas e romantismo feito de levamento de bandeiras!

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