O ovo da serpente chocou

Por Genaldo de Melo

Passam dos quinhentos anos em que Maquiavel em sua Florença da Idade Média dizia em alto e bom som que a história é a prova dos nove. E esta mesma, reiteradas vezes vem provando que a roda civilizatória não gira para trás quando se trata da própria civilização humana. É simplesmente incoerente a humanidade desenvolver estudos, criar tecnologias cada vez mais avançadas, produzir teorias que melhoram a prática da humanidade, avançar nos costumes e na cultura, e de hora prá outra simplesmente poucos que se acham iluminados impõem como a coisa mais natural do mundo o retrocesso ao passado.

Mas vergonhosamente o Congresso Nacional brasileiro aprovou o relatório da reforma trabalhista, de interesses apenas de um diminuto grupo da população brasileira para retrocedermos ao passado, quando não existiam direitos, quando se escravizava no trabalho em nome da acumulação absoluta de riquezas sob o controle de uma minoria conservadora, quando as teses econômicas pautadas na teoria da geração espontânea eram regras, porque a humanidade não tinha ainda avançado tecnológica e intelectualmente.

Ou seja, vergonhosamente estamos voltando ao passado com uma diferença abissal, porque hoje mesmo que as pessoas fiquem sob o crivo da barbárie trabalhista, elas sabem disso, e sabem que também podem e devem também radicalizar na barbárie. Ou alguém acha que daqui a dois ou três anos o povo brasileiro não irá sentir a falta de seus direitos mais elementares, que foram simplesmente tomados a força para se repetir o passado, como se a história não fosse a prova dos nove.

Se Stephen  Hawking preconiza que em breve tempo teremos desemprego e pobreza estrutural em função exatamente da possibilidade da substituição da mão de obra humana por máquinas, como pode um grupo pequeno de representantes no Congresso Nacional numa sociedade de 205 milhões de pessoas aprovar num espaço limitado de apenas poucos meses o retrocesso a um passado que a própria história com sua desenvoltura condena?

Foram precisos mais de 10 décadas de muita luta para que os avanços nos direitos sociais e trabalhistas acompanhassem os avanços dos demais setores da sociedade, principalmente os avanços científicos. Mais simplesmente um pequeno grupo de empresários, intelectuais comprometidos com seus empregos na área do pensamento, e deputados pequenos que não conhecem a história, mas apenas a ciência de angariar votos dos menores intelectualmente, impôs em pouco espaço de tempo a aprovação da PEC 55, que diminui o papel do Estado, a terceirização que provada está que no Brasil com sua legislação frágil cria somente escravos de poucos, e simplesmente coloca a CLT de 74 anos de idade como peça de museu e de estante.

Ao atual governo pouco importa sua baixa impopularidade, pois ele não teve votos mesmo da sociedade brasileira! Ele simplesmente comprometido com setores exageradamente no controle dos meios de produção, pega da estante teorias ultrapassadas, que comprovadamente para a civilização avançada em que vivemos somente vai construir a barbárie e a guerra entre grupos sociais, e impõe uma volta ao passado em que as pessoas ainda não tinham instrumentos adequados para lutar como existem hoje, principalmente a informação.

Com a aprovação de medidas constitucionais de exceção desenha-se no momento uma perigosa linha de raciocínio de uma nova ditadura no Brasil, a ditadura do judiciário que será responsável pelo cumprimento dos rigores da lei, através da força no sentido mais literal da palavra, porque o povo da mesma forma que a roda da história gira, está girando para frente, e naturalmente não vai aceitar de bom grado voltar ao passado. Maquiavel nunca esteve tão atual, e os fracos espiritualmente da sociedade brasileira insistem em não querer entender, ou aceitar de bom grado que a história é a prova dos nove.

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