Nunca houve período de mais corrupção do que na ditadura militar no Brasil

Por Genaldo de Melo
Recentemente “mentecaptos políticos” de plantão ocuparam espaços públicos de opinião para defender uma intervenção militar no Brasil, com a justificativa de que os militares poderiam resolver a grave crise por qual passamos, principalmente porque na época da ditadura militar não houve corrupção. Esse discurso é uma grande falácia reproduzida por quem não estuda a história para compreender melhor o que significa a democracia, e o que significa o autoritarismo político.

A verdade é que durante o período ditatorial houve mais corrupção do que em nossos tenebrosos tempos, mas o que havia era uma forte blindagem estatal, feita através da censura, que dificultava denúncias desse tipo contra os militares e seus aliados. A censura à imprensa investigativa, que escondia a corrupção, na prática era considerada estratégia de segurança nacional, uma vez que mantinha a maior parte da população alheia aos acordos governamentais que envolviam troca de favores, distribuição de cargos entre amigos e parentes, desvio de verbas públicas, enriquecimento ilícito e pagamento de propinas.

Mas mesmo com a repressão, episódios de corrupção foram divulgados durante o regime militar. Entre eles temos o caso do empréstimo de dinheiro público para salvar a falência da empresa Lutfalla, da família de Paulo Maluf, político ligado aos militares, e o caso emblemático de Delfim Neto, ministro do planejamento do governo Figueiredo, que também atuava no mercado imobiliário com o Banco Nacional de Habitação (BNH) na venda de terrenos superfaturados que movimentaram cerca de US$ 200 milhões na época. Delfim também ficou famoso com os casos Coroa-Brastel e Camargo Corrêa.

Nos anos 70, Haroldo Leon Peres, governador do Paraná, foi pego extorquindo um empreiteiro em US$ 1 milhão. Na Bahia, o “cabeça branca” ACM foi acusado em 1972 de beneficiar a Magnesita, da qual seria acionista, abatendo em 50% as dívidas da empresa em seu primeiro mandato no Estado. Sem esquecer que ministros e servidores federais dispunham de mordomias como jatos da Força Aérea à disposição, mansões com piscina e dezenas de empregados e gastos pessoais sem limites. 

No governo Médici, os generais de brigada que iam para Brasília contavam com US$ 27 mil para comprar mobília, e tudo com dinheiro do povo. Além de outras coisas tenebrosas, como o contrabando a partir dos anos 70 dentro da 1ª Companhia do 2ª Batalhão da Polícia do Exército, e a vida dupla do delegado paulista Sérgio Fernandes Paranhos Fleury, entre o Exército, e a associação com tráfico de drogas e o extermínio. 

E em relação a capacidade de militares resolverem nossa crise, fica difícil acreditar porque mesmo 33 anos depois do fim da ditadura militar, ainda sofremos as conseqüências do que foi feito naquela época. Pois como resultado desse período sombrio é que os grupos econômicos fortalecidos com a ditadura continuam poderosos econômica e politicamente até os dias atuais, e permanecem pautando o Estado e as políticas públicas nos dias de hoje. Ninguém que não tenha resistência à raciocínio vai acreditar que quem é preparado para defender nosso território vai ter a capacidade política de resolver crise nenhuma

A ditadura militar impulsionou e deu acesso direto por parte do empresariado ao Estado brasileiro. E coisas como a concentração fundiária e a elevada dívida pública, dentre outros fardos que temos hoje no Brasil e que não foram criados pela ditadura, mas potencializados por ela, permanecem nos dias atuais e não foram enfrentados de fato pelas forças políticas que conduziram o Estado brasileiro desde o advento da democracia.

Então não me venham "mentecaptos políticos" prá cá com esse negócio de que uma força institucional responsável pela segurança do território vai resolver os problemas brasileiros, porque podem não deixar a corrupção correr solta, porque apesar de eu também beber vinho, eu também gosto de ler um dos seus preferidos, como Ezra Pound!

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